quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Clinical Trial

"Estenda seu braço para mim, por favor."


Hallo.

Há quanto tempo, não? Bem, eu tive minhas dificuldades, mas continuo amando e procurando RPG Maker feito um doido varrido. Então tenho muitos jogos para comentar, a principal questão é pôr tudo em texto. Então vamos com calma, sem nunca parar.

Entretanto, sem mais delongas, hoje trago para vocês Clinical Trial, esse jogo com pontos bem interessantes a se considerar, gratuito e disponível em português pro Zveen (mesma pessoa que traduziu OFF para PT-BR)!

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SINOPSE

Clinical Trial (Ensaio clínico) é um jogo de terror psicológico feito no RPG Maker MZ por homie lançado em 30 de novembro de 2024. Nele, seguimos a perspectiva de Angel, uma pessoa não-binária com suspeita de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) indo para uma clínica fazer parte de um grupo de teste de uma nova medicação injetável para o transtorno. Essas visitas o aproximam de Lee, o enfermeiro aplicador das injeções. Os dois constroem uma relação de cumplicidade ao longo de cada testagem, mas um evento grave transforma essa dinâmica completamente. Tem uma média de quatro horas e dois finais.

⚠️ O jogo contém menções a abuso sexual, bem como gore pixelado e stalking.


Análise

Dá para se dizer que Clinical Trial tem duas partes. A primeira é quando Angel começa a visitar a clínica e essa é a única forma que há interações com Lee, e a segunda parte é depois que o período de teste termina, coincidindo com uma experiência infeliz e sensível para Angel. O jogo contém poucos mapas para explorar e por conta disso, aliás, o próprio autor define como uma "visual novel que você anda pelos locais". E é uma visão bem coerente com a realidade da gameplay. 

Praticamente toda a primeira parte você não precisa nem se preocupar em salvar - por mais que tenha uma única escolha, ela não faz diferença - porque aqui apenas é construído a base para a segunda parte. Então, ele se torna ainda mais limitado na questão de gameplay. 

Em compensação, a história aqui é a parte mais brilhante, superando até mesmo a questão de arte que por si só é bem característica e icônica, até por ser um traço pouco utilizado para RPG Maker.

Sendo bem direto, Angel é uma das melhores representações de TDAH que vi em um RPG Maker. É claro, isso passa por alguns estereótipos do transtorno, mas é nas dificuldades deste personagem que é possível ver o quanto a escrita veio de coração. Não é incomum uma pessoa com TDAH serem retratadas como um alívio cômico ou o "esquisitão" do grupo, enquanto aqui vemos toda a luta pela própria independência que é bem humanizador. 

Lee, embora não dito explicitamente, também é um retrato bem interessante do transtorno do aspecto autista (TEA). Ele sofre um pouco mais em sua caracterização, mas durante a gameplay dá para perceber a necessidade de rotina e algumas hiperfixações. Porém ele é um caso mais complexo, que jogando você entenderá bem a razão. 


Agora, a segunda parte... É bem onde as coisas começam a ficar controversas. Porque durante a clínica, você fica se perguntando "quando que o terror vai começar de verdade?" e bem, ele começa aqui, mas quando se compara as duas partes a pulga atrás da orelha sobre um elemento ou outro é quase inevitável. 

Clinical Trial é um caso em que a boa escrita de personagem na verdade piorou sua situação, porque se tanto Angel quanto Lee fossem personagens menos construídos, talvez ninguém ligasse para os finais. Mas eles são. Passamos tempo o suficiente vendo a vulnerabilidade dos dois e o quando eles criam esse apoio mútuo para querer torcer que tudo termine bem. Ou o que role não abale essa relação construída. 

Só que o que rola, ainda mais para um público ocidental, destrói tanto o que atrai as pessoas em primeiro lugar ao ponto de muita gente - eu incluso, até - preferirem o final "ruim". É um final menos construído, triste, mas realista. O diálogo de Angel me deixou muito satisfeito, pois, de certa forma, cumpre seu arco e deixa uma boa mensagem.

Mas estranhamente? Você simplesmente não consegue odiar esse jogo, ou falar que ele é ruim. Eu não consigo falar. Eu amo os personagens. Eu amei o jogo. Eu gostei de cada final. Mas que sua segunda parte é digna de horas de argumentação e até é um título pulável dependendo do quanto você tolera certas abordagens, não nego.


Sobre a fama do autor, homie

Outro ponto que eu preciso comentar porque é relevante até mesmo antes de baixar esse jogo é a fama péssima de seu autor, homie. Sem dar muitos detalhes eu consigo resumir que é mais um artista bastante fetichista, gostando principalmente de fetiches problemáticos, mais notavelmente onde o passivo (maior de idade, importante frisar) está em uma situação de vulnerabilidade. Isso, ironicamente, explica toda a problemática de Clinical Trial: o final foi escrito em cima da sua fetichização - e foi algo que notei imediatamente durante a gameplay porque o primeiro problema entre a relação dos dois vem de tropos antigos de animes, quebrando um pouco a imersão de um ambiente ocidental nos anos 2000. 

Portanto, se você não gosta de engajar em obras com autores problemáticos, esse é um aviso sincero para depois não encontrar do pior jeito possível.

Poderia não fazer um post para divulgar esse trabalho? Talvez, mas Clinical Trial tem tido bastante atenção e sendo meu compromisso com vocês informar sobre obras de RPG Maker que andam no boca a boca online, não podia deixar de falar sobre. Assim como em breve precisarei falar sobre um certo jogo de irmãos tóxicos (sigh)


Conclusão

Como dito acima, se Clinical Trial tivesse personagens menos empáticos, provavelmente ele não teria a fama que tem. Mas a profundidade deles carregam até a cilada que é os eventos que culminam nos finais. Porque em resumo, é um jogo com uma construção maravilhosa para justificar a fetichização que ocorre. 

Caso você, assim como eu, tenha gostado do jogo: Não se sinta culpado. Quer seja por causa de Angel, da apreciação da relação dos dois, ou o que seja; a primeira parte foi muito bem escrita e acredito que tenha valido sim a experiência.

Além disso, não esqueça... Se você assim como Angel sofre de TDAH, você ainda vai conseguir viver apesar das dificuldades. Apenas siga em frente e seja gentil.


Página da tradução por Zveen

Página original do jogo com acessos a outros idiomas


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Você já viu um cão fazendo rap? 🐕 (Mais)

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- Neil

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