sábado, 3 de abril de 2021

OMORI

“Close your eyes and you’ll leave this dream”

    Oi, oi, gente! É estranho acreditar que isto está acontecendo, mas eu sou a nova redatora da equipe, Staria. Sempre admirei muito as postagens do blog, e, agora na posição de alguém que as escreve, espero conseguir corresponder às expectativas de todos.

    Acredito que não há melhor jogo para me introduzir aos leitores do blog do que OMORI, jogo este que é difícil não se ter ouvido falar sobre se você tem certo interesse por videogames desenvolvidos nas engines RPG Maker, além de ser, certamente, a experiência mais impactante que tive com o “gênero”. OMORI é, provavelmente, o último grande nome, considerando-se o alcance que jogos RPG Maker e semelhantes, normalmente, possuem, após o sucesso colossal de Undertale e, através deste texto, espero demonstrar o porquê do título ter conquistado tamanho reconhecimento.


ゆ Descrição め

    OMORI é um jogo narrativo, com mecânicas de RPG comparáveis a Mother e elementos de terror, produzido por OMOCAT, por meio da engine RPG Maker MV, e publicado no dia 25 de dezembro de 2020. Dispõe de um terror psicológico claramente inspirado em Yume Nikki, inclusive utilizando do subconsciente onírico dos protagonistas para retratar suas inseguranças, medos e traumas, apesar de que, como supracitado, OMORI constrói uma história muito mais clara, pois se trata de um jogo narrativo, enquanto que em Yume Nikki, a decodificação dos acontecimentos cabe a cada jogador ou a um grupo destes.


ひ Personagens 

Omori

Um menino que, mesmo sendo, majoritariamente, não-verbal, raramente                monossilábico, e que apresenta extrema adversidade em expressar qualquer sentimento, valoriza profundamente seus relacionamentos.

Aubrey

Alegre, doce, amigável e, levemente, explosiva, pode ser considerada a detentora da maior física do grupo. Ao passo que vê Mari como uma irmã mais velha e, talvez, o Omori como mais do que um amigo, está sempre rivalizando com Kel.

Kel

A personificação de energia e o raio de sol da turma, está, a todo momento, se movimentando velozmente, além de adorar arremessar objetos. É o irmão mais novo de Hero, pelo qual ele nutre imensa admiração. Gosta de irritar Aubrey.

Hero

Junto às três personagens acima, compõe o grupo de personagens jogáveis. Muitíssimo habilidoso na cozinha, sabido na área medicinal, diligente, belo e charmoso, é, praticamente, um estereótipo de mocinho escrito. É o irmão mais velho de Kel e interesse romântico recíproco de Mari.

Mari

Apesar de não participar ativamente das aventuras do time, está sempre próxima a seus amigos, lhes oferecendo um local para descansar, comida e apoio emocional. Irmã mais velha de Omori, é o coração do grupo, guiando-os quando estão perdidos e os ajudando a lidar com brigas e, até mesmo, fobias.

Basil

Um garoto aficionado por flores e fotografia. Veste a coroa de flores por Mari ter dito que ele fica bonito com ela. Assim como Mari, não integra o grupo jogável, mas, com certeza, é o ponto norteador para o andamento da narrativa.


き História 

    Ainda que OMORI seja, a partir de meu ponto de vista, cirúrgico em, praticamente, tudo que se propõe a fazer, acredito, veementemente, que seu ponto mais forte seja sua história. OMORI, inicialmente, nos faz pensar que jogaremos mais um RPG Maker situado em um mundo fantástico, e os elementos presentes neste nos contarão, de forma subjetiva ou objetiva, o que realmente aconteceu, tanto com o protagonista, Omori, quanto com as outras personagens.

    Entretanto, a medida que mais horas de jogatina se passam (sim, horas, este jogo tem uma média de duração bem expressiva), mais as conexões com a realidade se tornam inteligíveis e, no lugar de, somente, tomarmos conhecimento de eventos passados irreparáveis, nos vemos com a possibilidade de remediar uma grande ferida, compartilhada entre todas as personagens principais, ou perpetuar o sofrimento causado por não falarmos dos males que nos acometem com aqueles os quais amamos.

    Muito mais que, simplesmente, lidar com um grande inimigo e salvar o dia, OMORI é uma história sobre superação de traumas, importância de amizades e saúde mental, escrita de forma, magistralmente, sensível e efetiva.

    Por este aspecto conter muitos spoilers, não me estenderei além disso, pois, mesmo que muitos não se incomodem com qualquer revelação da história, é muito gratificante explorar OMORI por si mesmo, encontrando pessoas novas (já conhecidas), batalhando novos (antigos) inimigos, explorando as memórias do protagonista e descobrindo verdades outrora ocultadas.


こ Visuais 

    OMORI não possuí uma estética tão polida quanto a encontrada em Pocket Mirror, por exemplo. Porém, a combinação dos componentes imagéticos o faz um dos melhores já concebido através do RPG Maker. Não só o fato de todos assets do jogo serem originais, mas o uso das cores, design de personagens e interfaces serem, extremamente, coerentes e bem pensados, mas também a presença de animações fluídas com certa frequência, tornam este jogo em um primor visual.

    Bosques verdejantes, povoamentos subterrâneos, castelos vitorianos, terrenos sobrevoadores, lixões contemporâneos, desertos açucarados, cassinos subaquáticos, até interiores de baleias: ambientes completamente distintos se tornam coesos, devido a um acurado uso de cores incomuns para contextos reais, que se encontram dentro do espectro que abrange azuis e verdes, além de tons de peles extremamente pálidos para as personagens tidas como humanas, entre muitos outros artifícios, assim permitindo ao jogador que se dispa de qualquer incredulidade e se imersa no mundo onírico do Headspace.

    No entanto, quando somos trazidos ao mundo tangível, este acaba por ser composto de tons mais terrosos, os quais estão inseridos nas cores quentes, e também tonalidades de peles mais rosadas ou marrons, esquema de cores mais típicos em jogos, passando ao jogador uma sensação de maior seriedade em suas ações e tornando os traumas do protagonista ainda mais concretos.

    Intermediando o Headspace e o mundo real, temos o Whitespace, um espaço preto e branco, no qual os momentos de maior introspecção do protagonista ocorrem. O monocramatismo de Omori perdura durante todo o tempo que passa no Headspace, o que o destoa de seus arredores, talvez como uma forma de demonstrar que Omori não pertence a tal mundo.

    Em OMORI, os aspectos visuais são muito mais do que uma plataforma para narrar uma grande história: eles próprios nos contam muito dela.


も Trilha Sonora 

    Outro aspecto notável é a sua composição sonora, pois, em adição a sua correlação com a trama, é mágica.

    O fato de toda trilha sonora ser original já é um ponto a ser destacado, mas o mais surpreendente é sua qualidade. Em um “gênero” cujos títulos como Ib, as criações de Miwashiba (△○□×), OFF, Pocket Mirror, etc, possuem composições fantásticas, OMORI, facilmente, figura em tal pódio, se equiparando ou, até mesmo, superando muitos de seus antecessores.

    Pedro Silva (mesmo seu nome sendo, estranhamente, muito brasileiro, toda fonte sobre a pessoa afirma que ela é californiana), que tem como principal projeto Slime Girls, e Jami Lynne, que já lançou músicas sob a alcunha de Space Boyfriend, uniram-se para compor mais de 100 faixas incríveis. Utilizando de instrumentos sintéticos e naturais, o time consegue exprimir precisamente as qualidades de cada ambiente em que o grupo jogável se encontra. 

    Ao passo que temos Trees... ou Spaces In-between, que despertam uma intensa solenidade, há também By Your Side., que aquece o coração de forma indescritível. As faixas de Otherworld têm uma sonoridade de músicas ambiente, enquanto as trilhas de Sweetheart’s Castle soam como arranjos tipicamente associados a realezas europeias. Composições que pendem para a erudição, executadas, quase somente, por instrumentos de cordas clássicos, como o piano e violino, possuem um significativo papel dentro da narrativa, o que contribuí ainda mais para o brilhantismo de tais obras (se você não acabar, completamente, destruído emocionalmente após ouvir Duet, é preciso averiguar o que há de estranho contigo). Da mesma maneira que os aspectos visuais são muito bem usados para compor os ambientes perpassados pelo jogo, a sonoplastia tem um uso tão bom quanto. A variedade de características presentes em cada uma das trilhas representa e complementa a multiplicidade dos espaços encontrados no jogo.

    Não posso deixar de mencionar a música My Time, de bo en, presente no trailer da campanha Kickstarter do jogo, e as músicas da OMORI’S JUKEBOX, sendo cada uma destas arranjos oriundos de compositores diversos, inclusive uma delas, Merry CD, de autoria de Toby Fox. Tais faixas são adições incríveis ao repertório de OMORI.


り Jogabilidade 

    Apesar de funcional e divertida, eu diria que suas mecânicas e sistemas são um dos pontos mais medianos da experiência de jogar OMORI. A jogabilidade não é ruim de maneira alguma, afinal, ela é essencial para a existência de OMORI como conhecemos e amamos, mas não se sobressai tanto, se comparada a outros elementos. 

    O sistema mais marcante é o de emoções. Cada combatente, aliado ou oponente, possui um estado emocional, sendo este, primeiramente, neutro. Através de habilidades, as personagens jogáveis e os inimigos podem fazer com que seus aliados ou oponentes sintam certas emoções, o que os fará mais fortes ou fracos contra oponentes que estão sentindo outras emoções, de jeito semelhante ao sistema de tipos encontrado em Pokémon, por exemplo. Para melhor entendimento, o esquema à esquerda explica.

    Salvo o sistema de acompanhamentos (tradução livre de Follow-Ups), que permite às personagens jogáveis realizarem outra ação após um ataque normal, nada foge muito de um clássico combate de RPG por turnos a la Mother, com equipamentos, itens de cura ou buff e skills que consomem mana, as quais possuem animações fantásticas, aliás.

    Unido ao combate, outro componente importantíssimo da jogabilidade é a exploração, muito usual dentre jogos RPG Maker. Explorar o mundo de OMORI, sem grandes propósitos, é um deleite por si só, pela riqueza de detalhes encontradas neste universo. Agora, com as missões secundárias dispostas ao longo da jornada, este processo fica ainda mais recompensador. Há alguns minigames aqui e acolá, mas não vejo nenhum como algo mais que relativamente distrativo.


おや Conclusão おや

    Sua longa duração e preço salgado (saindo por R$ 38 na Steam, única plataforma na qual foi disponibilizado, até então) são intimidadores, a princípio, mas podem ter certeza: OMORI é uma experiência inesquecível para àqueles que se deixam consumir por esta obra. 

    Visuais únicos e deslumbrantes; trilha sonora diversificada e impecável; jogabilidade divertida e prazerosa e, acima de tudo, uma das histórias mais emocionalmente devastadoras já contadas através de um jogo RPG Maker, posso garantir que, na minha perspectiva, vale cada segundo de seu tempo e centavo de sua compra.


すみ Campanha do Kickstarter すみ

    Algo fascinante sobre o desenvolvimento de OMORI foi a campanha de financiamento coletivo realizada por meio da plataforma Kickstarter para que se houvesse a possibilidade de OMORI ser lançado com o polimento desejado pela equipe.

    Considerando o nicho bem delimitado que é o RPG Maker, é, no mínimo, inesperado que um jogo feito na engine pudesse chamar a atenção de tantos, a ponto da meta original de $22.000 ter sido, facilmente, ultrapassado pela quantia final de mais de $203.000, valor quase 10x superior aos “míseros” $22.000. 

    Interessante notar que a data de lançamento estipulada pelos desenvolvedores era no início de 2015, e só fomos receber o jogo completo no final de 2020, mais de 5 anos depois. Nitidamente, a equipe passou por inúmeros contratempos durante o desenvolvimento de OMORI. Antes do lançamento, as expectativas dos apoiadores eram, justificadamente, baixas. Comunicação esparsa, vagueza e pouca quantidade de atualizações fizeram muitos acreditarem que o jogo não corresponderia às expectativas deixadas pelo trailer, ou que talvez nunca fosse lançado, se juntando às incontáveis campanhas mal sucedidas do Kickstarter. 

    Com a perspectiva que temos pós-lançamento, é difícil pensar que OMORI poderia acabar como um fracasso, mas, se olharmos de um ponto de vista de quem apoiou desde o início, as probabilidades eram grandes.

    Um detalhe que, por menor que pareça, foi prometido na campanha e que me fez falta na versão final é a capacidade de escolher os nomes e gêneros das personagens jogáveis. Aumentaria, fortemente, a imersão se pudéssemos escolher o gênero do protagonista de acordo com qual dos gêneros binários nos identificamos mais. Mesmo que não houvesse a inclusão de gêneros não-binários, acredito que faria uma diferença enorme para uma gama de jogadores.


Compre na Steam (disponível em inglês e japonês)

Mais?

-St⛤ri⛤

7 comentários:

  1. Eu to um pouco perdida, são outras pessoas que irão traduzir Omori e Angels of Death ??

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    1. Oie! Então, tanto OMORI quanto Angels of Death estão na blacklist de traduções, pois são publicados pela Playism, empresa esta que teve desavenças com a Mei (ex-líder da ZC) na passado e, por isso, não concede permissões à equipe. Mas tá rolando sim uma tradução BR de OMORI por outro equipe, e, de acordo com o twitter deles, vai ser lançada dia 12/04

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  2. Não me aprofundei tanto no jogo, ainda nem baixei, mas através do "destrinchar" abordado, tive curiosidade de pesquisar alguns elementos do jogo como; Música, ambientes, exploração e os personagens. Os personagens são incríveis. Uma história bem ritmada que com bons elementos da categoria, sou leigo no tema, mas pelo que li, me deu vontade de passar mais tempo com o pessoal de casa uasdhasusa...

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    1. Que bom meu texto te instigou a jogar! Essa é uma das minhas principais intenções com ele em primeiro lugar, introduzir e levar pessoas a jogarem essa maravilhosidade que é OMORI <3

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  3. É um pouco decepcionante que não tenham incluído a mecânica de Gêneros do personagem principal, mas foi pensado e até desenhado! Tanto que se vc falar com umas das "bruxas" que ficam dentro da baleia no ultimo dia, ela te dá um poção que transforma Omori em menina, não dá muito diferença (eles adicionam umas maria-chiquinhas e é isso). Mas mesmo que não tenham adicionado tudo que prometeram no jogo, ele realmente ficou acima das minhas expectativas, um jogo em mundo aberto e cheio de coisas pra fazer e lugares escondidos que te permitem aprofundar mais ainda na história era algo que eu não esperava kakaka, o que me faz pensar que se o jogo não tivesse sido concluido eles poderiam adicionar umas atualizações aqui e acolá e talvez aprofundar mais o white space? Adicionar mais memorias talvez, sinto que não conheci tanto a Mari a não ser pela visão do Omori. Enfim, com certeza tá na minha lista de favoritos junto com Undertale, só tô na espera da tradução pra re-jogar o jogo de novo embora tenha concluído todos os finais.

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    1. Agora que você comentou o fato de haver registros das possibilidades de gênero para a personagem principal, percebi que podia ter colocado uma das imagens promocionais da época, uashaus. Mas a escolha dos gêneros iria além do Omori, o jogo ia te permitir escolher o gênero e o nome de todas personagens do time jogável, o que permitiria muitas possibilidades, mas, de um ponto de design e comercial, acho que seria, realmente muito difícil de aplicar. Sobre expectativas, eu cheguei a me informar sobre o jogo algumas vezes em seu desenvolvimento, mas não entrei de cabeça, e mesmo se tivesse, o produto final superaria minhas expectativas de qualquer jeito, asuhaus. Eu não acho que a Mari tenha sido mal desenvolvida, mas, como você falou, também senti falta dela ser mais ativa no Headspace. Inclusive, tem uma cena excluída do jogo final que ela acompanharia Omori até a casa de Basil, e eu gostaria muito que a cena fosse incluída de alguma forma. De uma perspectiva analítica, eu não conseguiria elencar OMORI sobre Undertale e vice versa, mas, de uma perspectiva emocional, acho que gosto mais de OMORI, não sei, narrativas dramáticas como a de OMORI são as minhas favoritas, ainda mais quando falem de amizade, irmandade, etc. Enfim, amei seu comentário <3

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