quarta-feira, 22 de março de 2017

Detention

“O que eu fiz...?”


       Detention (返校/Detenção) é um survival horror taiwanês desenvolvido pela Red Candle e lançado em 13 de janeiro de 2017, para PC. O jogo se passa na Taiwan de 1960, sob a lei marcial e mais exatamente, no período do Terror Branco. No jogo, controlamos principalmente Fang Ray Shin ― “Ray”, em resumo ― uma aluna que se vê presa em um mundo de horror, entretanto, dedicado a lembrá-la do pecado dela.

Análise

       Eu ouvi falar de Detention por acaso, um pouco antes de ser lançado. Ele estava marcado como um jogo bem esperado e isso chamou minha atenção, até pela nacionalidade tanto da equipe quanto do jogo. É muito raro vermos algo saindo da órbita japonês/americano e é ainda mais vermos algo vindo de Taiwan (para quem não sabe, é um Estado insular parcialmente independente da China). Portanto, foi um título que ficou na minha cabeça durante um bom tempo.

       Não demorou muito e com seu lançamento diversos jogadores no Youtube fizeram uma jogatina de Detention, incluindo alguns dos meus favoritos, e assim pude ter a oportunidade de conhecer o jogo.

       O que eu me deparei é algo de fato único, que não se vê todo dia. Com um sistema side-scrolling (ou seja, os personagens se movimentam de forma horizontal pelo jogo) em um cenário como se fosse feito à mão ― isso se não de fato foi, a experiência que Detention traz é extremamente imersivo, mesmo para quem não conhece a cultura chinesa.

Roteiro

       É evidente que seu carro-chefe é o roteiro. Além dos diálogos em si serem dignos de altas reflexões, o desenvolvimento é feito de forma belíssima. Só não digo perfeita porque a abordagem implícita ― marcada especialmente pelo misto de notas e dedução de cenário ― leva a dúbias interpretações, o que não é bem para ocorrer, ainda mais considerando os pontos que levam para o final ruim (que aliás, é recomendado fazer primeiro que o bom). Por isso eu aconselho acompanhar com um bom domínio do inglês ou por meio de vídeos de Youtubers com língua portuguesa.

       O conceito é que a suposta “escola” muda seu cenário para nos contar a história de Ray, apresentando tudo com muitas metáforas. Lindas, mas que requer atenção do jogador. Para complementar, há uso de figuras da mitologia chinesa e alguns pontuais jumpscares, mas que por alguma razão se concentrou apenas na primeira parte do jogo. O que, do ponto de vista crítico, me pergunta até que ponto eles foram necessários para o desenvolvimento. Tornaram menos monótono? Sim. Mas fica o questionamento. Outra ressalva que faço é que não concordo com as atitudes da protagonista, mas suas condições são plausíveis para tudo.

Gráficos

       Como dito lá em cima, tudo parece ter sido feito à mão. A principal impressão que tal escolha de arte passa é que estamos lidando com algum tipo de quadrinho ou vendo as ilustrações de um livro. São de acabamento simples, mas que a composição por completo cria atmosferas que por sozinhas garantem o terror. Cada parte conta ― ou melhor, grita ― uma história tensa que ao mesmo tempo que te deixa curioso para prosseguir, temendo o que verá na próxima porta ou mudança de cenário.

       E por incrível que pareça, muitos deles nem precisam de sangue para este artifício! Fico feliz de ver coisas assim, por que demonstra nitidamente as diferenças de narrativa ocidental e oriental, com o estupendo fato que a marcação está sim no roteiro, mas é mais viva na arte.

Sonoplastia

       Muitas vezes, admito, ela passou imperceptível para mim. Mas as vezes que o compositor Weifan Chang preferiu destacar suas músicas que ora apresentavam ruído e melodias orientais, ora singelas mas lindas composições... Apenas enriquecia tudo de forma magnífica. Ele conseguiu criar músicas para cada momento, sem atrapalhar a imersão do jogador na trama. E - porque não dizer também ― completa a parte artística e melancólica do jogo. Das músicas, minha favorita se tornou “Left Alone”, do final bom.


Jogabilidade

       Mesmo com as limitações que um side-scrolling de clique impõe, Detention cria puzzles que estão na medida certa: Não são óbvios ao ponto de você reparar de primeira como avançar, mas também não dificultam a sua vida com algo mirabolante que só sendo um chinês para entender com facilidade o enigma. E confesso, algumas eram bastante divertidas de lidar. Além disso, na primeira parte, você deve driblar certas criaturas mitológicas para avançar de caminho, o que garante a atenção do jogador enquanto a história se aprofunda.

       O fato que a escola mudava sua forma também enriquecia a jogabilidade, afinal, algumas vezes você precisa ir se teletransportando entre realidades que costumam ser uma surpresa para completar os desafios. E acredite, a variedade de coisas que você fará jamais te entediará durante a jogatina.

Conclusão

       Detention é um jogo que cativa o jogador do início ao fim. Com uma história que se passa em um período real e horrível da História de Taiwan, é difícil o jogador não se afeiçoar com Ray, mas também logo entender tudo o que ocorreu na escola. Sim, ocorreu.

E então, compreender que tudo que restou naquele local foi a culpa de uma garota.




- Neil

5 comentários:

  1. O Alan do canal Eletronic Desire Ge já fez uma série com esse jogo, mas eu não curti muito. Essa postagem me fez olhar um jogo com outro lado, vou dar uma chance pra ele!

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  2. Pena que não tem tradução do game

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  3. AMEI, a postagem me ajudou bastante

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  4. Sabe se tem alguma previsão de sair uma tradução para PT

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